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# Deficiência de Ferro e Anemia Ferropriva - Abordagem Nutricional
- URL: https://www.medetc.com.br/ferro/
- Published: 2022-03-21T16:45:24.000Z
- Updated: 2026-09-03T17:11:18.000Z
- Description: Guia clínico sobre deficiência de ferro e anemia ferropriva: diagnóstico laboratorial detalhado, biodisponibilidade, fatores inibidores e facilitadores da absorção, diretrizes de RDA e protocolos de suplementação terapêutica oral com dosagens baseadas em evidências para o manejo na prática em saúde.
- Author: Pedro Miguel
- Tags: Exames Bioquímicos, Nutrientes, Suplementos

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**Autor/Editor:** Pedro Miguel - Formado em Nutrição pela UFMG; Pós graduado em Fitoterapia; Membro ISAK; Advanced Nutrition Specialist, pela IFBB; Colaborador do livro Biodisponibilidade de nutrientes; Graduando em psicologia;

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## Introdução

A deficiência de ferro (DF) e a anemia ferropriva (AF) são consideradas a carência nutricional mais prevalente globalmente, configurando um significativo problema de saúde pública (12). A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a DF como uma condição onde a mobilização dos estoques de ferro é comprometida, prejudicando o suprimento do mineral para os tecidos e a eritropoiese (11). O estágio mais severo desta deficiência culmina na anemia, caracterizada pela incapacidade do organismo de manter a concentração normal de hemoglobina (11).

## Recomendações:

- **Exames necessários:** Hemograma, Ferritina, Ferro sérico, TIBC, IST;
- **Suplementação:** 3-5mg/kg/dia de ferro elementar;
  - Adultos: 50-200mg/dia - Doses acima de 200mg não são recomendadas;
  - Gestantes: 30-60mg 1x na semana durante a gestação;
  - Idosos: 15mg/dia, corrigindo a causa subjacente;
  - Crianças: 6mg/kg/dia
- **Modo de usar:** Fracionar a dosagem; Consumir junto a refeição; iniciar com doses menores;
- **Efeitos colaterais:** Náuseas, desconforto epigástrico, diarreia, obstipação;
- **NOTA:** A dose máxima permitida para nutricionistas é 45mg/dia.

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## Metabolismo e Biodisponibilidade do Ferro

O ferro é um mineral fundamental, essencial para a oferta e utilização de oxigênio nos tecidos em níveis celular e subcelular (1). O controle do estoque de ferro no organismo é primariamente regulado pela absorção intestinal, visto que a excreção renal é insignificante (1). Perdas diárias de pequenas quantidades ocorrem pelas fezes (0,6 mg), urina (0,1 mg), suor (0,3 mg) e, em mulheres, pela menstruação (0,4-0,5 mg).

A absorção de ferro ocorre predominantemente no duodeno e jejuno proximal, onde as proteínas carreadoras de ferro são mais expressas (2). Em condições de estresse fisiológico, como hipóxia, anemia ou hemorragia, observa-se uma redução na síntese de hepcidina, o que induz um aumento na síntese de ferroportina e, consequentemente, uma maior absorção de ferro (3).

O **ferro inorgânico** é absorvido na sua forma reduzida (Fe2+). A presença de **agentes redutores**, como a **Vitamina C (ácido ascórbico)**, otimiza sua absorção ao facilitar a conversão do íon férrico (Fe3+) em íon ferroso (Fe2+) (3). Embora a ingestão diária de 40-80 mg de Vitamina C seja suficiente para as necessidades metabólicas, doses de 25-50 mg por refeição são eficazes para aumentar a absorção de ferro, particularmente durante a terapia de reposição em casos de anemia ferropriva (3). **Álcool e frutose** também demonstram a capacidade de aumentar a absorção de ferro (3).

A ingestão de ferro na dieta compreende dois componentes: o **ferro heme** (íon ferroso, Fe2+), encontrado em carnes vermelhas, e o **ferro não heme** ou inorgânico (íon férrico, Fe3+), presente em hortaliças, cereais, entre outros (1). Apesar de o ferro não heme ser a forma predominante na dieta, o ferro heme é o mais biodisponível (1).

Em uma dieta com 13 a 18 mg de ferro, aproximadamente 1 mg é absorvido; contudo, em estados de deficiência, a absorção pode aumentar para 2 a 4 mg (1). A quantidade máxima de ferro elementar que pode ser absorvida pelo trato gastrointestinal é estimada em 25 mg/dia (2).

### Fatores que Afetam a Absorção de Ferro

Certos fatores dietéticos e medicamentosos podem inibir a absorção de ferro:

- **Cálcio**: Prejudica a absorção de ambos os tipos de ferro (heme e não heme). A ingestão concomitante de um copo de leite e uma refeição pode reduzir significativamente a biodisponibilidade do ferro (3).
- **Quelantes de ferro**: Substâncias como oxalatos, fosfatos e fitatos, presentes em alguns alimentos, podem se ligar ao ferro, formando complexos insolúveis que dificultam sua absorção. A cocção desses alimentos pode mitigar esse efeito.
- **Taninos e polifenóis**: Presentes em café e chá, devem ser evitados após as refeições para não comprometer a absorção de ferro (3).
- **Fosfovidina**: Presente no ovo, pode interferir na absorção.
- **Redução da acidez gástrica**: Condições que diminuem a acidez gástrica (como o uso de antiácidos ou inibidores de bomba de prótons) podem prejudicar a absorção, uma vez que o ambiente ácido favorece a conversão de Fe3+ em Fe2+ (2).
- **Antibióticos**: Quinolonas e tetraciclinas podem formar complexos insolúveis com o ferro, inibindo a absorção de ambos (2).

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## Estágios da Deficiência de Ferro e Anemia Ferropriva

A deficiência de ferro evolui em três estágios sequenciais (11, 12):

1. **Depleção dos Estoques**: Definida pela redução da ferritina sérica, que reflete o ferro armazenado em tecidos como fígado, baço e medula óssea (12).
2. **Eritropoiese Deficiente (Deficiência de Ferro sem Anemia)**: Caracterizada pela diminuição da ferritina e do ferro sérico, acompanhada de aumento da Capacidade Total de Ligação do Ferro (TIBC) e redução da saturação da transferrina. Observa-se também um aumento na concentração de receptores da transferrina e da protoporfirina eritrocitária livre (11).
3. **Anemia Ferropriva**: Além das alterações dos estágios anteriores, ocorre uma queda nos níveis de hemoglobina (Hb) e modificações nos índices hematimétricos, incluindo **microcitose** (redução do Volume Corpuscular Médio - VCM), **hipocromia** (diminuição da Hemoglobina Corpuscular Média - HCM) e aumento da Amplitude de Distribuição dos Glóbulos Vermelhos (RDW), indicando anisocitose (12).

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## Manifestações Clínicas da Deficiência de Ferro

A deficiência de ferro, com ou sem anemia, manifesta-se comumente por **redução da imunidade**, **comprometimento do desempenho muscular** e **déficit na função neurocognitiva**, além de **ganho de peso insuficiente** (12).

Outras manifestações incluem:

- **Pica**: Apetite pervertido por substâncias não nutritivas (terra, barro, papel, amido) (12).
- **Estomatite angular**: Lesões nos cantos da boca (12).
- **Glossite**: Inchaço doloroso da língua, que pode se apresentar lisa e brilhante (12).
- **Coiloníquia**: Depressão central da lâmina ungueal com elevação das bordas ("unhas em colher") (12).
- Sintomas mais comuns na deficiência de ferro incluem **fraqueza**, **cefaleia**, **irritabilidade**, **síndrome das pernas inquietas**, diversos graus de **fadiga** e **intolerância ao exercício** (12).

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## Diagnóstico Laboratorial

O diagnóstico da deficiência de ferro e anemia ferropriva envolve a avaliação de múltiplos parâmetros bioquímicos (4, 12):

- **Ferritina sérica**: Principal marcador dos estoques de ferro. Níveis diminuídos indicam depleção. Contudo, a ferritina é um reagente de fase aguda, podendo estar elevada em processos infecciosos, inflamatórios, neoplasias ou doenças hepáticas. Nesses casos, a interpretação exige cautela e deve ser associada à dosagem da Proteína C Reativa (PCR) (12).
- **Índice de Saturação da transferrina (IST)**: Indica a porcentagem de transferrina ligada ao ferro. Níveis reduzidos sugerem deficiência.
- **Ferro sérico**: Concentração de ferro circulante no sangue. Diminui com a progressão da deficiência.
- **Receptor de transferrina solúvel (sTfR)**: Sua concentração aumenta em quadros de deficiência de ferro, sendo um marcador útil para diferenciar a deficiência de ferro da anemia de doença crônica.
- **Hemoglobina (Hb)**: Principal parâmetro para o diagnóstico de anemia.
- **Volume Corpuscular Médio (VCM)**: Indica o tamanho médio das hemácias. Baixo na microcitose.
- **Hemoglobina Corpuscular Média (HCM)**: Indica a concentração média de hemoglobina por hemácia. Baixa na hipocromia.
- **Protoporfirina de zinco (ZPP)**: Aumenta na deficiência de ferro.
- **Capacidade Total de Ligação do Ferro (TIBC)**: Aumenta na deficiência de ferro, refletindo maior número de sítios disponíveis na transferrina para ligar-se ao ferro.

A tabela a seguir resume as alterações laboratoriais observadas nos diferentes estágios da deficiência de ferro (12):

| **Exame Laboratorial**                | **Depleção dos Estoques** | **Deficiência sem Anemia** | **Anemia Ferropriva**                                                         |
| ------------------------------------- | ------------------------- | -------------------------- | ----------------------------------------------------------------------------- |
| Morfologia da hemácia (VCM, HCM, RDW) | Normal                    | Normal                     | VCM - Baixo (microcitose), HCM - Baixo (hipocromia), RDW - Alto (anisocitose) |
| Ferritina                             | Diminuída                 | Diminuída                  | Diminuída                                                                     |
| Ferro Sérico                          | Normal                    | Diminuído                  | Diminuído                                                                     |
| TIBC                                  | Normal                    | Aumentada                  | Aumentada                                                                     |
| Índice de saturação da transferrina   | Normal                    | Diminuída                  | Diminuída                                                                     |

**Diagnóstico Diferencial**: É fundamental considerar diagnósticos diferenciais, como talassemias (α e β), anemia por infecção/inflamação associada à ferropenia, deficiência de cobre, anemia sideroblástica e anemia ferropriva refratária ao tratamento com ferro (12).

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## Classificação da Anemia com Base nos Níveis de Hemoglobina (OMS 2017)

| **Idade**           | **Sem Anemia** | **Anemia Leve** | **Anemia Moderada** | **Anemia Grave** |
| ------------------- | -------------- | --------------- | ------------------- | ---------------- |
| 6 meses a 5 anos    | ≥11            | 10,9 a 10       | 9,9 a 7             | <7               |
| 5 a 11 anos         | ≥11,5          | 11,4 a 11       | 10,9 a 8            | <8               |
| 12 a 14 anos        | ≥12            | 11,9 a 11       | 10,9 a 8            | <8               |
| ≥15 anos (Mulheres) | ≥12            | 11,9 a 11       | 10,9 a 8            | <8               |
| ≥15 anos (Homens)   | ≥13            | 12,9 a 11       | 10,9 a 8            | <8               |
| Gestantes           | ≥11            | 10,9 a 10       | 9,9 a 7             | <7               |

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## Recomendações Nutricionais de Ferro (RDA)

As Recomendações Dietéticas Diárias (RDA) de ferro variam conforme o sexo e o estado fisiológico (1):

- **Homens**: 8 mg/dia (1, 8)
- **Mulheres**: 18 mg/dia (entre 19 e 50 anos) (1, 8)
- **Gestantes**: 27 mg/dia (1)
- **Lactantes**: 9 mg/dia
- **Limite Superior Tolerável (UL)**: 45 mg/dia

É importante notar que a ingestão de ferro deve ser superior à RDA em grupos de maior risco (1). Doses entre 20 e 60 mg/kg são consideradas tóxicas (1).

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## Estratégias de Suplementação de Ferro

A reposição de ferro por **via oral** é a forma preferencial de tratamento (9).

### Doses e Duração da Suplementação:

- **Anemia Ferropriva**:  
  - **Ferro elementar**: 3-5 mg/kg/dia (9).
  - **Adultos**: 50-200 mg/dia. Doses superiores a 200 mg/dia não são recomendadas, pois a mucosa intestinal age como barreira à absorção excessiva (9).
  - **Fracionamento da dose**: A dose diária pode ser dividida em duas ou três tomadas para melhorar a tolerabilidade e a absorção (6).
  - **Duração do tratamento**: O tratamento deve ser mantido por 1 a 2 meses para a normalização da hemoglobina, e de 3 a 6 meses, ou até que a ferritina atinja 30 ng/mL em adultos, para a reposição dos estoques (9).
  - **Acompanhamento laboratorial**: A dosagem de hemoglobina deve ser realizada a cada duas a quatro semanas durante o tratamento. Após a correção da hemoglobina, a ferritina deve ser avaliada mensalmente até atingir um mínimo de 30 ng/mL (9). A recuperação de uma anemia ferropriva pode levar de 3 a 6 meses; portanto, a intervenção precoce é fundamental (5).
- **Gestantes**: 30-60 mg de ferro elementar, uma vez por semana, durante toda a gestação (11).
- **Idosos**: Doses menores, como 15 mg/dia de ferro elementar, podem ser prescritas para melhor tolerabilidade, desde que a causa subjacente da anemia, frequentemente por perda sanguínea, seja corrigida (2).
- **Crianças**: 6 mg/kg/dia (dose máxima para nutricionistas é 45 mg/dia).
- **Recém-nascidos e Lactentes**: A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda a suplementação profilática de ferro para lactentes, independentemente da presença de fatores de risco (12).  
  - **Lactentes sem fator de risco**: Recém-nascidos a termo (RNT) com peso adequado para a idade gestacional (PAIG), em aleitamento exclusivo até o 6º mês – 1 mg/kg/dia, com início aos 180 dias de vida e continuidade até o 24º mês (12).
  - **Lactentes com fator de risco**:  
    - RNT, PAIG, independentemente do tipo de alimentação – 1 mg/kg/dia, iniciando aos 90 dias de vida até o 24º mês (12).
    - RNT com peso <2500g ao nascer – 2 mg/kg/dia, iniciando aos 30 dias de vida até o 1º ano, seguido por 1 mg/kg/dia por mais 1 ano (12).
    - RNPT com peso >1500g – 2 mg/kg/dia, iniciando aos 30 dias de vida até o 1º ano, seguido por 1 mg/kg/dia por mais 1 ano (12).
    - RNPT com peso entre 1000-1500g – 3 mg/kg/dia, iniciando aos 30 dias de vida até o 1º ano, seguido por 1 mg/kg/dia por mais 1 ano (12).
    - RNPT com peso <1000g – 4 mg/kg/dia, iniciando aos 30 dias de vida até o 1º ano, seguido por 1 mg/kg/dia por mais 1 ano (12).
    - RNPT que receberam >100mL de concentrado de hemácias durante a internação devem ser avaliados individualmente (12).

### Tipos de Suplementos de Ferro e Características

Os principais suplementos de ferro comercializados incluem sais ferrosos, sais férricos, ferro aminoquelado, complexo de ferro polimaltosado (ferripolimaltose) e ferro carbonila (9, 12).

Tradicionalmente, o sulfato ferroso (SF) foi o principal suplemento oral para tratar a deficiência de ferro devido à sua alta biodisponibilidade e eficácia comprovada na elevação dos níveis de hemoglobina e na restauração dos estoques de ferro (9). No entanto, este composto pode ter interações indesejáveis com componentes dietéticos como fitatos, polifenóis e outros, que podem formar complexos insolúveis e impedir a absorção do ferro (9).

Para mitigar essas interações, recomenda-se que o SF seja tomado com o **estômago vazio**, idealmente uma hora antes das refeições ou antes de dormir (9). Contudo, essa prática pode aumentar o desconforto gástrico.

A administração de SF também pode levar à oxidação do Fe2+ para Fe3+ na luz intestinal. Esse processo na membrana apical do enterócito pode gerar **radicais livres**, causando peroxidação lipídica das proteínas da membrana e, consequentemente, **dano celular**. Isso pode favorecer o desenvolvimento de lesões inflamatórias no trato gastrointestinal superior, como esofagite, gastrite, duodenite e úlceras (9).

Apesar desses desafios, o sulfato ferroso apresenta a vantagem de poder ser absorvido por **difusão passiva** em situações de deficiência de ferro moderada a grave (9). No entanto, a capacidade de absorção tanto ativa quanto passiva pode levar a desvantagens significativas. A absorção de uma quantidade excessiva de ferro pode saturar a transferrina, resultando na presença de **ferro não ligado à transferrina** e, mais importante, de **ferro livre plasmático**, que é a fração mais tóxica do ferro para o organismo (9). Além disso, a administração excessiva pode superar a "proteção da mucosa" e induzir toxicidade aguda (9).

O principal obstáculo para a adesão à terapia com SF são os efeitos adversos gastrointestinais, como **náuseas e desconforto epigástrico**, que geralmente ocorrem entre 30 e 60 minutos após a ingestão e estão diretamente relacionados à dose (9). Outros sintomas, como **diarreia e obstipação**, não são dose-dependentes e podem ser gerenciados com tratamento sintomático (9).

Para minimizar esses efeitos adversos, as seguintes estratégias podem ser adotadas (9):

- Fracionar a dose diária total em duas ou três tomadas.
- Administrar o medicamento durante ou após as refeições.
- Iniciar a terapia com doses menores (40-80 mg/dia) e aumentá-las gradativamente.

A dose letal de sulfato ferroso é de 350 mg/kg (9).

O **Ferro Quelato** (glicinato) é um elemento essencial na constituição da hemoglobina e mioglobina, atuando como transportador de oxigênio. Quando associado a cobre e cobalto, auxilia na prevenção da anemia ferropriva, contribui para o aumento da massa muscular e peso, melhora o índice de conversão alimentar e a fertilidade. A dosagem usual recomendada é de 30 a 60 mg de ferro elementar diariamente (9).

### Precauções na Suplementação:

- A suplementação de ferro em indivíduos sem deficiência pode induzir **vômitos, diarreia, dor abdominal e problemas hepáticos** (4).
- Atletas com deficiência de ferro podem requerer doses terapêuticas (superiores a 18 mg/dia para mulheres e 8 mg/dia para homens) (4).
- A suplementação de ferro deve ser evitada no período imediato após exercícios exaustivos, devido ao potencial aumento da concentração sérica de hepcidina, que interfere na absorção do ferro (1, 5).

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## Condições Específicas Associadas à Deficiência de Ferro

### Doença Celíaca

O ferro é absorvido primariamente na região proximal do intestino delgado, especificamente no duodeno e jejuno inicial, que são as áreas mais afetadas na doença celíaca (10). O ferro é captado pelas células epiteliais da mucosa duodenal na forma ferrosa (Fe2+) através do transportador bivalente de metais (DMT1), presente na borda em escova ou na membrana apical (2). A eficiência da absorção é proporcional à expressão do DMT1, que, curiosamente, pode estar aumentada na doença celíaca, talvez como um mecanismo compensatório à atrofia das vilosidades intestinais (10).

No entanto, o processo inflamatório na mucosa intestinal é o principal fator contribuinte para a deficiência de ferro na doença celíaca. Essa inflamação estimula macrófagos a liberar uma cascata de citocinas pró-inflamatórias (IL-1, IL-6, IL-10, IFN-γ) (10). Dentre essas, a **IL-6** é o principal indutor da expressão de hepcidina. O aumento da hepcidina, por sua vez, inibe a liberação de ferro pelos macrófagos e a absorção intestinal, devido à sua influência sobre a ferroportina, que regula a saída de ferro do enterócito (10). A boa notícia é que, após a adesão a uma dieta isenta de glúten, as reservas de ferro geralmente são restauradas em um período de seis a doze meses, podendo levar até dois anos (10).

### Deficiência de Ferro em Recém-Nascidos, Crianças e Lactentes

A deficiência de ferro e a anemia ferropriva em recém-nascidos e crianças podem ser atribuídas à baixa reserva de ferro ao nascimento, ingestão alimentar inadequada, redução da absorção intestinal (enterócitos) e aumento das perdas (sangramentos) ou demanda (crescimento físico acelerado) (12).

Recém-nascidos podem apresentar deficiência de ferro como resultado de deficiência materna de ferro, insuficiência placentária, hipertensão materna, diabetes mellitus gestacional e clampeamento precoce do cordão umbilical (12). Além desses, outros fatores de risco incluem menor idade do lactente, desmame precoce, alimentação complementar inadequada, menor idade materna e maior incidência de infecções respiratórias e gastrointestinais (12).

A prevenção da deficiência de ferro é realizada através do **aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de vida** e sua manutenção até os 2 anos (12). É crucial destacar que aproximadamente 80% do ferro de um recém-nascido a termo é acumulado no terceiro trimestre da gestação. Consequentemente, recém-nascidos prematuros nascem com reservas reduzidas, tornando a profilaxia com ferro precoce (a partir dos 30 dias de vida) fundamental (12).

### Considerações sobre Ferro e Exercício

No contexto esportivo, a redução da concentração de hemoglobina pode comprometer significativamente o desempenho físico, devido à diminuição do transporte de oxigênio para o músculo exercitado (1). Além disso, a redução da atividade de enzimas contendo ferro pode ter efeitos deletérios no desempenho físico (1).

Em atletas de elite, a depleção dos estoques de ferro pode estar associada a um aumento na percepção subjetiva de sobrecarga de treinamento (1). A tolerância ao esforço demonstrou relação direta com a concentração de hemoglobina, independentemente da adequação do estoque de ferro corporal. Observa-se também que a concentração sanguínea de lactato durante o exercício é mais elevada em indivíduos anêmicos em comparação ao grupo controle (1).

Perdas de ferro nas fezes, urina e suor são amplificadas pelo exercício intenso e prolongado, podendo ser até 70% maiores em atletas do que em indivíduos sedentários (1). O organismo se adapta ao treinamento de resistência aumentando a massa eritrocitária e o conteúdo de mioglobina no músculo esquelético (1).

É importante notar que a suplementação nutricional de ferro em atletas sem deficiência não demonstrou aumentar o desempenho aeróbio (8).

### Metabolismo do Ferro em Maratonistas

Maratonistas são um grupo de alto risco para desenvolver anemia, perda de densidade mineral óssea e imunossupressão devido ao treinamento intenso e prolongado (1). Apesar de a dieta típica de um maratonista ser rica em calorias, em alguns casos, a ingestão de ferro pode ser inadequada (1).

Estudos sugerem que maratonistas podem apresentar maior fragilidade eritrocitária e maior *turnover* de eritrócitos, indicando que suas necessidades de ferro são, provavelmente, superiores às da população geral (1). A concentração sérica de ferro pode permanecer inalterada ou aumentar imediatamente após uma maratona, mantendo-se alterada por até 2 semanas. No entanto, a redução na contagem de eritrócitos, hemoglobina e hematócrito é observada entre o 2º e o 9º dia pós-corrida (1).

A maratona pode induzir **hemoglobinúria**, **hemorragia pulmonar**, **perda de sangue gastrointestinal** e, principalmente, **hemólise** associada ao impacto na planta dos pés durante a corrida (1). Maratonistas com valores de ferritina sérica inferiores a 35 mg/L são comumente recomendados a suplementar com 100 mg/dia de ferro heme, visando restaurar a concentração de ferritina para aproximadamente 60 mg/L em 2 a 3 meses (1).

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## Referências Bibliográficas

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2. Beatriz, C. **Anemia por deficiência de ferro – Portaria SAS/MS nº 1247**. 2014\. p. 27–46.
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6. Mam, W. M. et al. Tradução da Diretriz NHG M76 (2003). **Ned Huisartsen Genoot**, v. c, p. 6–10, 2014.
7. Ross, A. C. et al. **Nutrição Moderna de Shills na Saúde e na Doença**. 11\. ed. São Paulo: Manole, 2016\. 1642 p.
8. Kerksick, C. M. et al. ISSN exercise & sports nutrition review update: Research & recommend. **J Int Soc Sports Nutr**, v. 15, n. 1, p. 1–57, 2018.
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11. Silva, S. M. C. S.; Mura, J. D. P. **Tratado de alimentação, nutrição & dietoterapia**. 3\. ed. São Paulo: Editora Pitaya, 2016\. 1308 p.
12. Braga, J. A. P.; Amancio, O. M. S. **Deficiências Nutricionais – Manual para diagnóstico e condutas**. 1\. ed. Santana de Parnaíba: Manole, 2022\. 216 p.