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# Glutamina: Fisiologia e Terapia Nutricional
- URL: https://www.medetc.com.br/glutamina/
- Published: 2022-03-21T21:21:24.000Z
- Updated: 2026-09-03T17:38:12.000Z
- Description: Análise clínica da glutamina: metabolismo interorgânico, modulação da barreira intestinal e função imune. Evidências atuais sobre a condicionalidade em estados catabólicos críticos, repercussões em oncologia, limitações na prática esportiva e diretrizes de suplementação baseadas na literatura.
- Author: Pedro Miguel
- Tags: Suplementos

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**Autor/Editor:** Pedro Miguel - Formado em Nutrição pela UFMG; Pós graduado em Fitoterapia; Membro ISAK; Advanced Nutrition Specialist, pela IFBB; Colaborador do livro Biodisponibilidade de nutrientes; Graduando em psicologia;

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## Introdução

A **glutamina** é o aminoácido mais abundante no corpo humano, desempenhando funções vitais em diversos tecidos e sistemas. Embora classicamente considerada não essencial, sua importância assume um caráter condicionalmente essencial em estados de estresse fisiológico e patológico.

## Recomendações:

- **Suplementação:** Não existe indicação para a suplementação de glutamina em pessoas saudáveis e bem alimentadas.

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## Metabolismo e Fisiologia da Glutamina

### Aspectos Gerais

A glutamina é um **aminoácido não essencial** (1, 2). No entanto, em situações específicas, como para neonatos e adultos em condições de estresse grave, torna-se **condicionalmente essencial** (3, 2). A deficiência severa de glutamina pode aumentar a expressão da enzima glutaminase e inibir a glutamina sintetase (2).

A síntese de glutamina ocorre em diversos órgãos, incluindo **músculo esquelético, pulmões, fígado, cérebro e possivelmente tecido adiposo**, todos apresentando atividade da enzima **glutamina sintetase (GS)** (1, 2, 4). A glutamina é predominantemente sintetizada a partir de L-glutamato (GLU) e amônia (NH3) pela ação da GS (5). Estima-se que um indivíduo saudável de 70 kg possua entre 70 e 80g de glutamina distribuída no corpo, com uma produção diária de 40-80g (2). Devido a essa abundância, a glutamina pode atingir níveis até 100 vezes maiores que outros aminoácidos, sendo o aminoácido livre mais abundante no organismo (2).

Por outro lado, os principais tecidos consumidores de glutamina são as **células da mucosa intestinal, leucócitos e células do túbulo renal**, que exibem elevada atividade da enzima glutaminase (1, 2, 6). Em certas condições, como na ingestão reduzida de carboidratos, o fígado também pode se tornar um consumidor de glutamina (1, 6).

A glutamina representa cerca de **20% do total de aminoácidos livres** no corpo (4, 7) e é sintetizada endogenamente no citoplasma celular a partir de outros aminoácidos, predominantemente aminoácidos de cadeia ramificada e glutamato (9). O **músculo esquelético** é o principal produtor (sintetizando 10-25g/dia) e principal sítio de armazenamento (aproximadamente 80% do total) de glutamina (2, 4).

### Funções Primordiais da Glutamina

A glutamina exibe um metabolismo dinâmico entre os órgãos, sendo o principal carregador de amônia interórgãos (4). É utilizada como fonte de energia primária para a mucosa intestinal e células imunológicas, especialmente linfócitos (7, 9).

Nos enterócitos, o metabolismo da glutamina gera dióxido de carbono, ornitina, prolina e citrulina; ela também atua como doador de nitrogênio para a síntese de citrulina dentro dessas células (9), muitas vezes sem alcançar a circulação (4).

É um substrato energético preferencial para células de rápida divisão, como enterócitos, colonócitos e células imunológicas (linfócitos e monócitos) (9).

A glutamina:

- Estimula a proliferação celular e inibe a apoptose em células do epitélio intestinal (9).
- Intensifica a função imune endógena (9).
- Super-regula a síntese de **GSH (glutationa)**, inibe o estresse oxidativo e melhora o controle redox (oxirredução) (9).
- Aumenta a geração de **Proteínas de Choque Térmico (HSP)** citoprotetoras (9).
- Preserva a estrutura e função proteica das *tight junctions* da mucosa intestinal (9).
- Diminui a resposta a citocinas pró-inflamatórias (9).
- É crucial para a manutenção da mucosa intestinal, regulando genes e proteínas envolvidas na proliferação, diferenciação e apoptose, além de ter efeitos antioxidantes e melhorar a resposta imune (3).

Suas principais funções incluem:

- Aminoácido constituinte das proteínas corporais (9).
- Substrato energético importante para células de rápida divisão (9).
- "Combustível" para o sistema imune (2).
- Principal carreador de nitrogênio no metabolismo proteico interórgãos (1, 9).
- Carreador de amônia (1).
- Atuação como precursora da ureogênese e gliconeogênese hepática, e de mediadores como GABA e glutamato (1).
- Papel central na transaminação de aminoácidos; precursor de glutamato (9).
- Doador de nitrogênio para biossíntese de purina e pirimidina (9).
- Substrato-chave para ureagênese hepática e gliconeogênese (9).
- Substrato importante para amoniagênese renal e excreção de ácido (9).
- Destoxificação de amônia (1).
- Manutenção do balanço ácido-básico (1).
- Possível regulação direta da síntese e degradação proteica (1).
- Atuação no crescimento, reparo e diferenciação celular (1, 2).
- Promoção e melhora da permeabilidade e integridade intestinal (1).
- Fornecimento de energia aos fibroblastos, aumentando a síntese de colágeno (1).
- Elevação da resistência às infecções por aumento da função fagocitária (1).

As duas principais enzimas intracelulares envolvidas no metabolismo da glutamina são a **glutamina sintetase** (sintetiza glutamina a partir de amônia e glutamato na presença de ATP) e a **glutaminase** (hidrolisa glutamina em glutamato e amônia) (1).

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## Recomendações Nutricionais e Fontes

### Fontes Alimentares

A glutamina pode ser obtida através de uma dieta balanceada, presente em **carnes vermelhas, ovos, leite, tofu, milho e arroz** (2). Uma dieta equilibrada fornece glutamina e outros aminoácidos essenciais para a homeostase, crescimento e manutenção da saúde (2).

### Suplementação Nutricional

**Não existe indicação para a suplementação de glutamina em pessoas saudáveis e bem alimentadas** (7, 9). Mesmo em determinadas doenças, o nível de evidência é baixo (7).

**Formas de Suplementação**:

- **Glutamina livre**: Principalmente metabolizada no intestino, com pouca contribuição para os estoques corporais (2).
- **Glutamina na forma di-peptídica** (ligada a outros aminoácidos): Consegue alcançar a corrente sanguínea, escapando em grande parte da metabolização intestinal (2).

É importante ressaltar que grande parte dos estudos sobre suplementação de glutamina utiliza a **via endovenosa**, e os mesmos resultados nem sempre são obtidos com a **suplementação oral** (2). Além disso, na suplementação oral, as doses chegam a **50g/dia**, e os resultados ainda são controversos; existem doses sugeridas de até **0,5g/kg de peso** (2). Existem poucos estudos em humanos que comprovem os efeitos da suplementação oral de glutamina; a maioria é realizada em animais e/ou *in vitro* (8).

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## Aplicações Clínicas e Evidências

### Doenças Inflamatórias Intestinais (DII)

A mucosa intestinal de pacientes com **doença de Crohn** ou **colite ulcerativa** tende a produzir elevadas quantidades de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, IL-8, TNF-α) (2). A glutamina é capaz de **reduzir a produção dessas citocinas**, provavelmente por uma via pós-transcricional (2). Desse modo, a glutamina pode ser útil na modulação desse desequilíbrio que exacerba a inflamação intestinal (2).

### Impacto no Intestino

A suplementação de 0,5g/kg, duas vezes ao dia, em leitões amamentando, foi capaz de induzir o desenvolvimento intestinal e do organismo (3). Outros estudos demonstraram que a glutamina estimula a síntese de proteínas na mucosa do intestino delgado em humanos e ratos (3). A glutamina é um fator regulador de bactérias intestinais, o que sugere profundos impactos na saúde tanto do intestino quanto do organismo como um todo (3). Estudos in vitro e em animais mostram que a suplementação é capaz de estimular o crescimento da vilosidade intestinal, melhorando a absorção de nutrientes (8).

No estado absortivo, a captação de glutamina pelo intestino ocorre via membrana apical, e a quantidade que alcança o sangue portal depende da concentração de glutamina no lúmen intestinal (1). A glutamina necessária para o intestino é primariamente consumida pelas células da mucosa, que representam a maior massa de células de proliferação rápida no organismo de indivíduos eutróficos (1). Nas células intestinais, a modulação da glutaminase é importante para manter a integridade tecidual, permitir a absorção adequada de nutrientes e prevenir a translocação bacteriana para a corrente sanguínea (2). Uma possível via de ação é através da ativação da via mTOR, aumentando a síntese de proteínas nos enterócitos, promovendo assim o desenvolvimento intestinal, a regulação da expressão das proteínas das tight junctions, a imunidade intestinal e inibindo a apoptose induzida pelo estresse oxidativo (3).

### Situações Hipermetabólicas (Sepse, Queimados, Mucosite/Quimioterapia)

Distúrbios no metabolismo de aminoácidos e proteólise muscular são características de quadros hipermetabólicos (2). Nessas situações, aminoácidos não essenciais, como a glutamina, tornam-se condicionalmente essenciais (2). Embora a administração de aminoácidos não sintéticos, como a glutamina, seja indicada para pacientes hipercatabólicos, sua eficácia é frequentemente questionada devido a resultados controversos (2). Estudos experimentais e observacionais já identificaram que, durante o aumento do catabolismo, baixos níveis plasmáticos de glutamina são um fator de risco para mortalidade (2).

Em uma revisão sistemática, a suplementação de glutamina (30g/dia divididos em 3 doses) reduziu significativamente o grau de mucosite, comum em pacientes com câncer de cabeça e pescoço (2). Em outro estudo, a suplementação de 18g/dia de glutamina, 5 dias antes e durante o tratamento quimioterápico, reduziu significativamente os efeitos colaterais como permeabilidade intestinal, absorção de nutrientes, diarreia e mucosite intestinal (2).

### Estresse e Cognição

A suplementação de glutamina em ratos **reverteu níveis elevados de corticosterona** para níveis ótimos (12). Distúrbios na via glutamatérgica no sistema nervoso central são uma das causas de desordens emocionais e cognitivas (12). Como o glutamato é um neurotransmissor excitatório crucial e a glutamina é seu precursor, a liberação e as concentrações extracelulares de ambos devem ser estritamente reguladas para assegurar a função cerebral normal (12). A suplementação dietética de glutamina **preveniu a diminuição de glutamato e glutamina** (e seus transportadores e sinalização glutamatérgica) devido ao estresse (12). Tem-se sugerido que a glutamina pode ter um **papel neuroprotetor contra o comprometimento cognitivo** induzido pelo estresse oxidativo (12).

### Sistema Imune

Tanto a glutamina quanto a glicose são utilizadas por linfócitos e macrófagos para a obtenção de energia (6). A glutamina é convertida em glutamato e aspartato, sofrendo oxidação parcial para CO2 (glutaminólise), um processo essencial para o funcionamento efetivo das células do sistema imune (6).

Os principais componentes da imunidade inata incluem barreiras físicas e químicas (epitélio, substâncias microbicidas) e células fagocíticas (neutrófilos, macrófagos) e outros leucócitos (células NK) (1). Linfócitos T e B respondem pela imunidade adquirida; sua proliferação, produção de IL-2, síntese de anticorpos e taxas de síntese proteica são dependentes de glutamina (6). Isso demonstra que a glutamina é um importante modulador da função de leucócitos, linfócitos e macrófagos (2).

Concentrações plasmáticas e teciduais de glutamina diminuem em situações catabólicas (trauma, queimaduras, sepse, pós-operatório, diabetes não controlado, exercício exaustivo ou treinamento intenso) (1, 6). Essa resposta está associada ao aumento da suscetibilidade a infecções, sugerindo-se que isso se deve, em parte, à diminuição do fornecimento de glutamina para células imunocompetentes (1, 6). Durante quadros infecciosos ou de aumento do catabolismo, o consumo de glutamina pelas células imunes pode ser maior que o consumo de glicose (2). A suplementação de glutamina não tem efeitos significativos em neutrófilos, linfócitos e leucócitos em indivíduos saudáveis (11). Na perda de peso, embora haja diminuição da glutamina plasmática, não há ligação com aumento de infecções respiratórias, e a suplementação não mostrou benefícios nesse contexto (13).

### Sistema Antioxidante

Há crescentes evidências de que alterações no balanço redox, crônicas ou agudas, interferem diretamente em doenças como câncer, doenças cardiovasculares, diabetes, sepse e infecções (2). Nesse sentido, o *status* da glutamina tornou-se um importante marcador de recuperação/saúde, onde baixas concentrações de glutamina levam a uma **diminuição do sistema antioxidante dependente de glutamina, via glutamina-GSH (glutamina-glutationa)** (2). O GSH é o antioxidante não enzimático mais importante e concentrado nas células de mamíferos, capaz de reagir diretamente com as Espécies Reativas de Oxigênio (ROS), gerando GSH oxidado, e doar elétrons para a redução do peróxido, catalisado pela enzima glutationa peroxidase (2).

### Saúde Cardiovascular

Existem evidências substanciais de que os aminoácidos desempenham um papel fundamental no sistema cardiovascular (5). Estudos demonstraram que a administração de glutamina nos vasos sanguíneos pode aumentar a produção de óxido nítrico (NO), talvez pela maior disponibilidade de L-arginina como substrato para a enzima óxido nítrico sintase (NOS) (5). O NO é responsável pela fluidez do sangue e previne tromboses, limitando a agregação e adesão plaquetária (5).

Doenças cardiometabólicas, caracterizadas por resistência à insulina, tolerância à glicose diminuída, dislipidemia, hipertensão e adiposidade visceral (5), podem estar relacionadas, em parte, a distúrbios no metabolismo da glutamina (5). Diversos mecanismos têm sido propostos para mediar os benefícios na saúde cardiovascular, incluindo o aumento da liberação de GLP-1, melhora na externalização dos transportadores de glicose e melhora na liberação de insulina pelas células beta-pancreáticas (5).

Além disso, uma razão elevada de glutamina/glutamato está associada a um menor risco para diabetes mellitus, enquanto uma razão diminuída está associada à resistência à insulina (5). A suplementação oral de glutamina melhorou a tolerância à glicose, e seu uso crônico diminuiu a pressão sistólica, a glicemia de jejum e melhorou a composição corporal em pacientes com diabetes tipo 2 (5). Alguns estudos relataram que a suplementação de glutamina pode diminuir riscos cardiovasculares em animais expostos a exercícios e a uma dieta rica em gordura (5).

### Obesidade

Apesar de intensas pesquisas, a inflamação de baixo grau associada à obesidade e ao tecido adiposo branco (WAT) ainda não é completamente compreendida (14). Estudos analisando os metabólitos do WAT descobriram que a glutamina foi o **metabólito mais reduzido** quando comparados indivíduos obesos e saudáveis (14). Embora a glutamina sérica não sofra alteração, a glutamina local no tecido adiposo é reduzida (14). Foi observado, tanto em ratos quanto *in vivo*, que o metabolismo da glutamina é alterado na obesidade, resultando em um aumento da cromatina O-GlcNAcylation e na expressão de genes em vias pró-inflamatórias (14). O gene GLUL, que codifica a glutamina sintetase (a única enzima sintetizadora conhecida), é **diminuído em indivíduos obesos** (14). GLUL foi positivamente associado a genes relacionados ao metabolismo de lipídios e carboidratos, mas inversamente relacionado a processos inflamatórios e remodelamento de tecidos (14). A glutamina demonstrou ser **anti-inflamatória** através da alteração do metabolismo de carboidratos e lipídios (14). Estudos em ratos e *in vivo* têm explorado a suplementação intravenosa de glutamina, obtendo resultados positivos em relação ao metabolismo e à inflamação. Contudo, esses achados ainda não foram testados em humanos e, portanto, não possuem aplicação prática imediata (14).

### Estresse Associado ao Calor

A suplementação de glutamina permite uma **redução dose-dependente na morte celular associada ao choque térmico**, resultado da capacidade da glutamina em aumentar a expressão gênica da **HSP70 (Proteína de Choque Térmico 70)** (2). As HSPs são uma família de proteínas polipeptídicas com diversas funções, sendo a mais importante sua ação como acompanhante molecular, prevenindo a agregação proteica, a desnaturação e o dobramento incorreto de peptídeos recém-sintetizados (2). Estudos *in vitro* e *in vivo* demonstraram que a glutamina é capaz de manter a homeostase celular, promovendo a sobrevivência das células contra estresses fisiológicos e ambientais através da proteção mediada pelos níveis intracelulares de HSP (2).

### Câncer

É bem estabelecido que as células cancerígenas são extremamente dependentes do metabolismo da glutamina. No entanto, o papel da glutamina em tumores *in vivo* e o papel da suplementação ainda são controversos (2).

### Atletas / Desempenho

A suplementação de glutamina para fins de melhora de rendimento, alteração de composição corporal ou modificação na degradação proteica associada ao treinamento de força **não apresentou resultados significativos** (4, 10, 11). A suplementação antes e depois da prática de exercícios **não gerou alterações imunes** (7). Há algumas evidências, porém limitadas, que suportam o uso da glutamina pós-eventos de *endurance*, com doses de 2x 5g (7).

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## Referências Bibliográficas

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